A VIDA DE RICHARD
- Estevão Salomão

- 7 de mai. de 2020
- 7 min de leitura
Por: Estevão Pinheiro Salomão

PREFÁCIO
Esta narrativa do gênero ficção foi escrita ao longo de vários períodos durante aproximadamente um ano.
Apesar de ficcional, a descrição desta história possui relação com a realidade, adquirida e transpassada por meio de experiências sociais.
O personagem principal é um ser imaginário. Uma figura metafórica, que tem por objetivo ser um elo entre a crítica e a realidade.
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Já não sei mais quem sou. Se escritor, leitor ou personagem. Garanto-lhe, caro amigo, que isso já não importa mais. Aliás, esta é uma história sem princípio, sem meio e sem fim. Uma história sem estória, da verdade sem razão, do pecado e da condenação!
Desculpe-me pela falta de clareza, caro leitor, mas minhas palavras se fundem às de Richard e já não sei quem escreve, quem pensa, quem lê!
Saiba que você é o principal protagonista desta história e, se tentar achar um culpado, pode colocar a culpa em mim, o Richard, o escritor, o leitor!
FATOS
A desigualdade de renda no Brasil ficou estagnada em 2017, pela primeira vez nos últimos 15 anos, segundo relatório divulgado pela Organização Não Governamental Oxfam. Com isso, o Brasil subiu um degrau no ranking mundial de desigualdade de renda, passando a ser o 9º país mais desigual.
Entre os destaques do relatório, é possível observar que os rendimentos do trabalho dos 10% de brasileiros mais ricos cresceram 6% de 2016 para 2017; já entre os 50% mais pobres, a renda caiu 3,5%.
CAPÍTULO 1
Silêncio! Vergonha! Ajuda! Não pela história miserável, miserável! Não, não! Mas por você, você mesmo, meu velho amigo Richard.
A mente do coitado não andava bem e ele sabia disso. Ou talvez não. Mas, quem é que se importa? Louco varrido de uma figa!
Na busca pela fuga dos delírios do pensamento, a última lembrança daquele moribundo foi o cheiro do esgoto como uma faca penetrando as entranhas de um homem sem sonho, sem esperança, sem vida.
Era um domingo frio e ao fim daquela viela escura as reflexões de Richard pairavam entre o passado, o presente e um futuro que nunca chegou, nunca chegaria.
Mais um estalo de consciência e seus olhos se abriram novamente, mas por poucos segundos; o corpo foi vencido pelas doses de cachaça ingeridas freneticamente durante os últimos três anos.
Antes de apagar por mais algumas horas, estranhamente Richard ouviu o choro de uma criança ao longe. Caiu na gargalhada, olhou para o céu, ficou nervoso, fez o sinal da cruz – doido de pedra, coitado -, tomou mais um gole de pinga e desmaiou.
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Era 1936 e o choro que ecoava pela janela de um casebre localizado no interior de uma região pobre representava uma riqueza àquela família – tão humilde quanto sua própria origem.
Pequena e feia, a criança que nascia possuía nome de estrangeiro: Richard.
Apesar de o relógio, o único daquela residência de madeira, apontar para às 15h40 de uma terça-feira quente, o tempo correspondia a uma época de contrastes: riqueza para além da imaginação e a cruel pobreza, realidade.
O terreno, como de costume, há muito abrigava porcos, galinhas e uma pequena plantação onde, agora já menino moço, uns 18 anos, Richard plantava sua colheita; a qual sustentava sua fome, de sua mãe, Maria, e da irmã Lorizete, 15 anos, com quem compartilhava o trabalho árduo no campo.
Richard e Lorizete eram filhos de um pai com nome de coronel: Barbosa! Que também havia descoberto cedo o alento do trabalho duro. Esposo de Maria, Barboza morreu num hospício.
As incansáveis horas na roça, a falta de alimentação, e a preocupação excessiva cobraram um alto preço ao pobre homem: dois anos internado longe da família antes de, finalmente, morrer.
Mas, por hora, deixaremos o Barbosa descansar em paz.
Proprietária de uma vida vazia desde a morte do marido, Maria desfrutava de uma profunda depressão. Condição nada muito chocante para sua filha Lorizete, já que o silêncio daquela terra era tão agonizante que mesmo que olhasse a quilômetros de distância nada se via, a não ser a velha e conhecida Rodovia Progresso.
Longe da cidade grande, dos filhos de ‘doutô’, com pouca vizinhança, e com terreiro quase infértil por conta do solo pobre em nutrientes, aquela família vivia, sobrevivia.
Desde o falecimento do pai, a menina de pele bonita teve que deixar a vaidade de lado para ajudar no sustento de sua família – para não morrer de fome! Legumes para o almoço, salada para janta, e o tomate de péssima qualidade para vender na beira da estrada.
A comercialização do tomate na Rodovia Progresso, R$2,50 o quilo, era a única renda que mantinha a família viva, tão magra quanto a cintura de Lorizete, sempre desejada por alguns caminhoneiros.
Viúva, depressiva e quase louca, Maria não tinha dúvidas que o marido, traste, adoeceu por conta da cachaça e da sem-vergonhice. Coitado! Antes de chegar cansado do trabalho, passava no bar do Tonhão e enchia a cara de cachaça, R$ 1,50 a dose. Vez ou outra aparecia com arranhados nas costas; “arame farpado”.
Numa noite qualquer, cheirando a pinga e cigarro, Barbosa caiu no mato a caminho de casa; mas dessa vez não foi sozinho. Caiu junto com sua loucura, com suas desilusões, com seu desespero em nunca ter dado um conforto necessário à sua família.
Deitado entre o céu e o inferno, o silêncio daquela noite não foi o suficiente para aquietar os pensamentos de Barbosa, que variavam entre a lucidez, o álcool da cachaça e o delírio que a cada dia tomava conta de sua existência.
Para ver se curava o marido, antes de dormir Maria ia ao terreiro fazer uma oração. Cada noite uma galinha. Macumba, macumba das bravas. Coitada da Maria! E das galinhas também!
Conhecido como filho de pobre e louco, de mãe depressiva e macumbeira, Richard um dia, com 28 anos, sonhou que seu futuro estava na cidade grande, a mais de 500 quilômetros de casa. Deixar de lado aquela vida miserável, de pessoas miseráveis, para ter um trabalho, um salário, uma família, ser alguém na vida, que alegria meu Deus.
CAPÍTULO 2
Acorda vagabundo! Um empurrão fez com que Richard acordasse naquela noite que parecia não ter fim. Desta vez era a Polícia.
Um vizinho estava se sentindo incomodado com a presença do homem próximo ao esgoto, no frio, com pouco agasalho. Do chão até dava para ver o bom sujeito acenando aos policiais. Ser humano fantástico aquele.
Como se o céu fosse desabar sobre sua cabeça, de tanta dor, tontura e frio, Richard levantou-se e, cambaleando, acompanhou os policiais.
Recebeu um cobertor, tomou um chá quente, doce, amargo. Cadê minha pinga? Não existia pinga alguma! Deitou no banco de trás da viatura e apagou.
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Como assim, não acorda? A única resposta era o choro desenfreado de Lorizete do outro lado da linha.
Com o barulho da ficha caindo, Richard entendeu a mensagem. Maria, minha mãezinha querida, faleceu!
Foi encontrada morta dentro do quarto, ao lado de meia dúzia de remédios e uma bíblia, que há muito tempo já não fazia efeito. A tristeza matou!
Naquela noite, a morte fez companhia aos sonhos de Richard: Era mais um dia de sol e Barbosa levantou cedo, tomou café, acendeu um cigarro e foi abrir a porteira. Vamos moleque! Richard, com 12 anos de idade, pulou da cama, comeu um pedaço de pão seco e também foi à roça.
Filhos de um sol escaldante, Richard era um daqueles homens que morriam a cada segundo. O suor e o cheiro de trabalho eram nauseantes, mas era bom, tirava a fome. Vez ou outra ele servia os superiores que iam ao local fiscalizar o trabalho. Quer água, senhor?
O barulho do golpe do facão ficou ensurdecedor, galinhas, Maria, o pai nosso, morte, um grito. Richard acordou molhado de suor, 2h15 da madrugada. Era só um sonho! Quem dera!
Após o enterro da mãe, a vida de Richard tinha que continuar.
Richard chegou sem fôlego ao cartão de pontos da empresa de construção civil. Sem atraso! Nunca havia atrasado! Era o funcionário destaque em quase todos os meses dos 5 anos com carteira assinada. Carteira assinada!
Uniforme azul, luvas, capacete. Fazia parte de um time. Não igual antigamente, no corte de cana. Agora era diferente, seus superiores o elogiavam. E a cada elogio uma marretada, um suor escorrendo. Diziam até que, se continuasse assim, subiria de cargo. E mais suor! Sem contar que no fim do mês ele recebia o merecido salário mínimo.
Aluguel, água, luz, uns legumes para o almoço, salada para janta e lá se foram mais 30 dias de funcionário do mês.
CAPÍTULO 3
As cadeiras vazias só aumentavam a sensação de frio e solidão que aquele local transmitia. Uma mulher de cabelo curto e óculos o encarava. Cadê o documento?
Entre os papéis, uma ou duas moedas e alguns cartões de visita, Richard tirou o RG da carteira e apresentou à moça.
Os policiais aguardavam do lado de fora da clínica de psiquiatria até a internação do homem, cuja existência representava uma digital no boletim de ocorrência.
Mais uma vez o cheiro de urina dominou os pensamentos de Richard. Mas, desta vez, não era esgoto. Era hospício! O odor foi ficando repetido, repetido, repetido, escuridão. A injeção de calmante fez efeito e Richard dormiu.
CAPÍTULO 4
Já são mais de 19h e nada do homem aparecer. Carol, esposa de Richard, já havia cansado de se preocupar com a demora do marido. Mas a forte depressão não dava trégua, atormentava a vida da infeliz enquanto o traste não chegava.
A promoção no trabalho nunca aconteceu e nos últimos anos a pinga era a principal companheira daquele homem, que um dia sonhou “ser alguém na vida”.
O relógio já marcava 20h e a cada dose de cachaça ele se lembrava do passado, de sua irmã que há muito tempo não via. Dizem que foi embora com um caminhoneiro. Essa gente fala demais!
A cada copo cheio o vazio de um homem que um dia acreditou num futuro melhor para sua família. Não aconteceu! Nunca aconteceria!
Entre as ilusões da mente e a verdade estampada naquela noite fria de inverno, Richard levantou da mesa de bar e, sem pagar a conta, correu sem rumo em direção de uma viela escura.
Antes do cair quase morto ao lado daquele esgoto, as alucinações de Richard já o dominavam. Parou de repente e viu seu pai caminhando ao seu lado, com as mãos calejadas da vida na roça, tais como as suas, na cidade.
Por um instante sentiu uma imensa saudade de sua época de infância, de sua vida no campo, de seus pais e de sua querida irmã.
Lembrou-se dos sonhos de criança, dos planos na cidade grande e a certeza de que a história difícil nunca mais se repetiria.
Andou por mais alguns metros e caiu.
Silêncio! Vergonha! Ajuda!



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